domingo, 9 de dezembro de 2012

Tempestade de Estrelas

O cheiro de enxofre invadia aquela sala, mas ele já estava acostumado. Suas mãos se abriam por sobre a mesa, enquanto as figuras mágicas dançavam pela superfície de madeira, em um misto entre prata e azul, ressoando com a sua energia mágica. Seus olhos violetas expressavam a mais pura calma e concentração, enquanto um filete de suor escorria pelo lado direito do seu corpo. Estava acostumados com aquele brilho e, por mais que a sua magia intensificasse a sua luz, sua concentração se mantinha impecável.

A sala era um local um tanto quanto limpo e grande, imersa no negro. A mesa encontrava-se no centro, com alguns pergaminhos por cima dela, mas tudo ali estava impecavelmente organizado, fazendo parte do ritual. Encravada na mesma encontrava-se um círculo mágico que, agora, se enchia naquele tom misterioso. Nas duas extremidades da mesa encontravam-se pequenos recipientes - um deles com um líquido vermelho, outro com um líquido verde - e ambos produziam uma fraca cor para iluminar aquele ambiente de um modo um tanto quanto estranho. A escuridão ocultava o resto do aposento, mas olhos atentos revelariam um círculo mágico desenhado onde o Mago se encontrava, cobrindo um raio completo de cinco metros e sumindo na própria escuridão.

Elenion Alagos estava quase colado com aquela mesa, trajando um longo robe negro, emoldurado por detalhes em azul claro. Em sua cintura, um cinto dourado prendia as vestimentas rente ao seu corpo. Naquela escuridão, ele parecia muito mais velho do que era. Parecia ser um alto bruxo, com imenso poder. Sem dúvida, em sua mente, ele tinha esse imenso poder e, em termos de talento, ele deveria ser algum tipo de prodígio. Os olhos violetas mantinham-se fixos em sua magia, dançando hipnoticamente com as imagens que ali se formavam. Seus longos cabelos negros caíam sobre os ombros, constatando com a sua pele extremamente branca. Elenion não devia ter mais do que seus 16 anos... mas a sua experiência com a magia era invejável. Se era no sangue que estava a magia, então Elenion era um abençoado.

O vento soprava forte lá fora, mas, com as janelas fechadas, tudo o que ele podia ouvir era o uivo do invisível. O ritual prosseguiu. O líquido nos dois potes começaram um movimento aleatório, tendo o seu brilho aumentado gradativamente. A cor começava a varrer o ambiente, mas parecia presa em uma esfera de três metros ao redor do Bruxo, já que a sala ainda estava oculta. Calmamente, ele começou a pronunciar palavras em uma língua estranha, enquanto o vento parecia uivar mais e mais alto do lado de fora. O som de um raio cortou o ambiente, enquanto a chuva começou a cair forte e apressadamente. Uma tempestade.

O brilho diminuiu, enquanto os círculos mágicos voltaram à sua expressão sem cor. O ambiente tomou-se de negro, sendo agora apenas iluminado pela luz dos raios que caíam do lado de fora. - HAHAHAHA! - Sua voz gargalhou, cortando o ambiente, ao mesmo tempo em que um novo raio caía, espalhando o som do trovão pelo universo. - Magnífico! Sim, sim, magnífico! HAHAHAHA! Ninguém pode parar o grande Elenion Alagos, o Mago do Universo, o Transmutador de Mundos! Hahahaha! Ajoelhem-se, peões, pois agora vocês hão de ser submetidos ao meu poder... Ajoelhem-se ou pereçam no reino do esquecimento... vermes! - E continuou ali rindo, enquanto o caos em sua mente se fazia presente.




sábado, 8 de dezembro de 2012

Tubarão Perneta

"Amei uma donzela doce como o verão!
Seus cabelos tinham cor de mel...
Me afundei em sua paixão...
E os seus beijos me levaram ao céu!"

As notas soavam de um modo doce naquele ambiente, enquanto a voz daquele cantor acompanhava cada uma delas de um modo melódico e calmo. A música era um tanto quanto lenta e ele a pronunciava com emoção, de olhos fechados. Seus cabelos vermelhos caíam sobre os seus ombros, enquanto com as mãos ele habilmente segurava o seu alaúde. Os seus dedos dançavam pelas cordas, produzindo os acordes necessários para acompanhar aquela canção.

A imagem que se produzia ali era um campo verdejante, enquanto uma donzela flutuava a sua volta, com suas roupas de seda róseas, uma coroa de rosas na cabeça, com uma felicidade e uma elegância sublimes. Ela o envolvia, enquanto o bardo permanecia absorto em sua música.

"E na sua dança eu me envolvi
Cantei, girei, até que eu caí...
Doce, doce veneno!
Longo beijo e agora nem um único aceno!"

A música se tornou mais lenta, enquanto a voz do Bardo agora se espalhava pelo ambiente com uma força maior. Ele girava enquanto tocava o seu alaúde, revelando as suas botas negras, sua calça marrom e a camisa branca de manga comprida que usava, ao mesmo tempo em que um turbilhão vermelho e dourado se formava ao seu redor, culpa daquele "quase sobretudo" que usava. Seus cabelos também acompanhavam o movimento do seu corpo, em parte ocultos pelo grande chapéu dourado e vermelho que repousava em sua cabeça. Seus olhos esmeralda concentravam-se em ponto nenhum, dando um ar misterioso ao artista - amplificado pela máscara que tapava a parte superior do seu rosto, deixando tudo acima do nariz oculto, exceto os seus olhos.

A donzela havia se aproximado, dado um leve beijo em sua testa antes de sair flutuando, distanciando-se. O mundo havia se tornado preto e branco, tocado pelo cinza e pela prata. A grama havia se destruído, se queimado. A coroa de flores caiu no chão, espalhando-se com o vento. A donzela agora revelava um rosto medonho, pálido e fantasmagórico, acompanhado por olhos vermelhos. Logo ela se reaproximou do bardo, como se o atormentasse. O envolvia, girava em velocidade em torno do mesmo, com extrema destreza. Ele permaneceu ali, cantando, ignorando aquela presença ao seu redor, ou pelo menos tentando manter-se inabalável.

"Um fim tem tudo o que começa!
Nunca permita que o medo te impeça!
Aproveite o calor enquanto a chama queimar...
Pois um dia ela irá se apagar!


Como se comandada pelas palavras do Bardo, uma pequena chama se formou em seu bandolim, antes de aumentar, aumentar e aumentar, envolvendo todo o seu corpo e expandindo-se pelo ambiente. Os mais próximos podiam sentir o calor aumentar, mas logo a chama atacou a Donzela que girou em um arco de fogo, sendo rapidamente consumida. A música lentamente cessou, com as imagens sumindo e o Bardo terminando a sua apresentação. O silêncio tomou conta do lugar por alguns segundos.

- Sou Kairos Argyros, senhores. Kairos das Mil e Uma Canções, se vocês preferirem, ou o Arauto das Palavras... Depositem o dinheiro no chapéu. - Sua voz soava com calma, enquanto seus olhos fitavam a platéia. Tirou o chapéu da cabeça e estendeu ao público. Apenas naquele momento ele viu para que tipo de pessoa tocava. Afinal, ele estava na conhecida taverna "Tubarão Perneta" e tudo o que ele via eram marujos, mal encarados que fitavam-no com suas canecas de cerveja na mão. Eles haviam ficado quietos até agora pela presença da magia e por alguma surpresa, mas agora...

- VIADO! - Gritou a primeira voz. - SUA PUTA! - Gritou a segunda, fazendo coro. E então a confusão começou. Kairos Argyros não entendia porque marujos não gostavam de canções de amor, mas sabia também que o nível de álcool no sangue deles deveria estar excessivo. Um marujo tentou atirar-lhe uma caneca cheia de cerveja mas, com elegância, o Bardo girou o seu corpo, transferindo o seu peso habilmente pelos calcanhares e movimentado-se com leveza, segurando o objeto pela lateral e arremessando-o de volta. O coro aumentava, enquanto a caneca girava no ar, sendo refletida de volta à sua origem. Não se pode ouvir o choque dela na testa daquele homem no meio daquela taverna - o barulho era excessivo com o coro que atingia a sexualidade do bardo, falando que ele deveria tecer um cachecol para o seu esposo - mas o ferimento que se abriu da testa dele, misturando o jorro de sangue com vidro e cerveja, poderia ser visto por qualquer um que olhasse na direção do impacto.

- CHUPA, SEU BABACA! Um Bardo nunca erra o alvo! - Berrou, desnecessariamente provocando os marujos, enquanto fazia uma estranha dancinha, balançando os braços de um lado pro outro com nenhum estilo. Outras coisas foram arremessadas em sua direção. Um outra caneca, apenas esquivada dessa vez, seguida de uma cadeira, que ele saltou habilmente abaixou-se para evitar e, por último, mas não menos importante, um anão. Quando ele viu o anão, ele começou a gargalhar, mas saltou, fazendo com que a criatura passasse também por debaixo do seu corpo. - Vocês precisam fazer melhor do que isso... - Comentou, antes de perceber uma mesa voando na sua direção. Uma maldita mesa. Que tipo de gente jogava mesa nos outros? Bêbados de bar, é claro.

Gritou algum palavrão, antes de pousar no chão e sentir a mesa batendo no seu corpo. Resistiu bravamente ao impacto, mas sentiu a dor espalhar pelo seus braços que ele havia utilizado para bloquear o objeto. Mesmo assim, ele girou, batendo simultaneamente em suas coxas, antes de ser travado. Sentiu o osso quase quebrar e soltou um berro. O bandolim havia parado no chão e ele deu dois passos para trás. Quando a visão se recuperou da dor, viu alguns homens correndo em sua direção. Claro que a pancadaria havia começado no bar, mas o alvo principal era ele. Então... bastante gente corria para bater nele e, depois, roubá-lo.

- A coisa não parece muito boa aqui... Acho que eu terei que usar a minha especialidade: Arte da Fuga. Eu me lembro... - Ele divagava com uma calma sobre-humana, que não fazia sentido nenhum para a situação. O tempo pareceu fluir mais divagar, enquanto ele analisava o ambiente. Bandolim a três passos de distância, inimigos a dez passos. Tempo para ação de aproximadamente três segundos. Rota definida, preparação mental feita e o seu corpo começou a deslizar pelo ar. Com uma cambalhota, pegou o bandolim de volta, já terminando o movimento em um salto e, girando o corpo, acertou o primeiro inimigo com um golpe certeiro no rosto. O segundo passou direto quando tentou socá-lo, como se a imagem do bardo fosse uma mera ilusão, tão rápido que ele se movia. O terceiro levou uma joelhada na barriga, cuspindo cerveja e baba de uma única vez, antes de ser empurrado e cair no chão. O relâmpago vermelho e dourado percorreu o bar, antes de saltar na direção de uma janela, estourando-a com o peso do seu corpo.

Dor, ele sentiu-a se espalhar pelo seu corpo, enquanto o vidro cortava-o, mas a cena havia sido bonita, em sua mente, pelo menos. Sangrando, com alguns pedaços de vidro no corpo, ele agora saía do Tubarão Perneta com algum estilo, assustando as pessoas do lado de fora. Ele estava a quanto tempo do porto mesmo? Não importava muito, porque ele saiu correndo em disparada. Afinal, tinham uns quinze caras querendo bater nele agora. Era bom que ele corresse rápido para longe dali. Sua sorte era que correr era uma das coisas que ele fazia melhor. Ainda mais se fosse de um problema!

Quebra-Cabeça

Eu tenho andado bastante pensativo nesses últimos dias. Aproveito a minha solitude (não confundir com solidão, jamais) - provocada talvez pela não necessidade da rotina de "acordar, faculdade, academia, leitura / estudo / internet, dormir" - para pensar, refletir, ponderar, analisar e quaisquer outros verbos da esfera mental os diferentes aspectos da minha vida. Afinal, os dias estão passando e daqui a pouco é hora de abrir as asas e decolar.

Quando estamos nesse estado é que podemos enxergar nossos acertos e erros, nossas vantagens e desvantagens, nossos pontos fortes e fracos, no eterno jogo de dualidade entre luz e sombras. É o momento de encarar a si mesmo, por mais que você tenha fugido dessa oportunidade durante um bom tempo. Olhar o seu próprio reflexo, olho a olho e encarar o seu maior inimigo e, misteriosamente(?), o seu maior aliado: você mesmo. É o momento de perceber que, como somos meros seres humanos, somos vulneráveis. Mas, igualmente, por sermos meros seres humanos, podemos crescer e sonhar, podemos ter esperança e determinação... e é justamente isso que nos torna forte, que nos permite atravessar qualquer tempestade e sorrir no fim de tudo.

Uma possibilidade de auto-análise não pode ser feita em cinco, dez minutos. É algo que demora. É algo que precisa ser feito e refeito a cada alvorada. Não como o trabalho de Sísifo, de rolar uma pedra inutilmente montanha acima todos os dias, mas sim o trabalho de um construtor que, dia após dia, coloca mais alguns tijolos em sua fortaleza.

Quem disse que a parede não pode ser o chão e o céu a parede?
Tijolos? Fortaleza? Sim, se você precisar de uma.  Ou talvez a sua Torre, o seu Parque, o seu Jardim, o seu Templo. Não importa, pode ser uma mistura de tudo. O que importa é que seja o seu lugar, o seu refúgio, o local onde você deve se sentir confortável. Pois, se você não está confortável consigo mesmo no âmago do seu espírito, da sua mente ou do seu coração (qualquer palavra que você preferir), a sua desordem se refletirá na sua vida. Preste atenção: Não é um local para você se esconder, é um local para você descansar.


Ao mesmo tempo, pergunto-lhes:
Como você quer exigir sinceridade, se você não é sincero consigo mesmo?
Como você quer exigir simpatia, se você não é simpático consigo mesmo?
Como você quer que os outros confiem em você, se você não confia nem em si mesmo?

Aliás, você não tem que exigir nada de ninguém! Quem somos nós para exigir de um terceiro qualquer coisa? Não somos livres para fazer o que quisermos?


Deixe de procurar nos outros o que deveria existir dentro de você. 

Seja justo consigo mesmo, seja sincero consigo mesmo. Afinal, se você abdicar de si mesmo por uma outra pessoa o resultado, além de ser imprevisível, pode ser desastroso para você mesmo. Não estou dizendo que você tem que se tornar o lorde do egocentrismo, mas saiba dar o valor certo a você mesmo e os outros igualmente aprenderão a lhe dar o valor.

A pergunta, no fim, é bem simples: Que construção você quer construir? Que caminho você quer caminhar? Que canção você quer cantar? Que sonho você quer sonhar?

A resposta, infelizmente (ou talvez felizmente, pois é na jornada difícil que estão os melhores prêmios) não é tão simples quanto parece. Dúvidas, medos, insegurança... existem essas pequenas palavras, que parecem tão simples de evitar, mas são extremamente poderosas. Poderosas se você der o espaço para elas crescerem e germinarem. Como um pequeno verme, um sanguessuga, que lentamente se alimenta de você. E sabe o que deve ser feito com vermes e ervas daninhas? Eles devem ser arrancados e jogados fora, não importa o dano que eles causem em você. Porque deixá-los crescer apenas pioraria a situação no futuro.

Claro claro, você pode achar todo esse post uma grande bobeira. Filosofia barata. Para mim, as peças no quebra-cabeça se encaixam e eu começo a conseguir ver a imagem do todo. Ria, se divirta, se o post lhe parecer engraçado. Enquanto isso, eu penso, reflito e construo.

Até mais!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Por que eu gosto de ler? Parte I

Alerta: esse post contém palavrões que podem ter sido ou não censurados.

Posso dizer que eu estava "seco" para escrever um post sobre livros e não tenho ideia porque eu demorei tanto tempo para fazê-lo! Talvez fossem outros assuntos que surgissem no momento, fazendo com que minha "criatividade" ficasse um bloqueio. Mas então a oportunidade vem e agora eu estou motivado para escrever sobre livros que eu li. Tenho em mente um ótimo livro para começar.

WINTER IS COMING

PORCARIA NENHUMA!


Quero falar sobre um livro que pode até ser "alguma coisa parecido" com o famoso "Game of Thrones", mas que tem um "foco" completamente diferente. "As Crônicas de Arthur" (The Warlord Chronicles, em inglês) é uma trilogia que fala sobre o Rei Arthur? Pare clichê? Provavelmente é, mas logo logo mostrarei com o livro quebra esse clichê.

A trilogia é formada por "O Rei do Inverno", "Inimigo de Deus" e, como não podia deixar barato na Lenda de Arthur... "Excalibur".

Então, vamos começar com os motivos de eu gostar desse livro. 

Eu sempre fui um pouco preconceituoso com a Lenda do Rei Arthur. Okay, okay, o cara podia ser legal, tirava a espadinha da pedra, o Merlin soltava uns hadoukens de vez em quando e tudo era belo e tal. Qual a graça disso? Já vi várias histórias como essas. Lancelot, claro, era um cavaleiro muito belo, galanteador e a Morgana uma linda mulher, de longos cabelos negros, fria e calculista, encantando todos com a sua beleza e inteligência...

CHA-TO! Acho que dessa "versão clichê" que eu mais odeio é a Morgana. Put* que me pariu de personagem feminino "frio e calculista", "sem coração" e "manipuladora". "Femme Fatale" me parece ser um arquétipo tão tosco, mas tão tosco, que deveria ser banido. Sabe o que eu acho mais tosco nesse arquétipo? É que a mulher fica O LIVRO INTEIRO torrando a porcaria do saco, lá com a sua "frieza e fodeza inabaláveis" para o quê? Para, no fim, se apaixonar pelo herói, mostrar que é doce, carinhosa, meiga e frágil. MORRA, SUA TOSCA. CONTINUE SENDO FRIA E 'FODA', AO INVÉS DE DESABAR. 

Depois desse desabafo, quero chegar no meu ponto: O livro acaba com esses clichês. Arthur sim, é um líder carismático, um excelente guerreiro, mas acabamos não conhecendo muito da personalidade dele. Toda a história gira em torno de "Derfel", um dos guerreiros de Arthur. O Merlin é descrito como um "mago" maluco, que já levou as "três feridas para alcançar a sabedoria". Ninguém acredita nele, ele não tem mais poderes... ele é praticamente um druida lutando com a sua fé contra inimigos que ele não pode vencer. Lancelot? Lancelot sim é um belo guerreiro, com seus longos cabelos e seu sorriso maroto... e é um tremendo filho da put*. Covarde, manipulador, não perde uma oportunidade para ferrar os outros. Morgana, minha querida Morgana? Metade do corpo queimado, maluca, mas tudo de maluca ela tem de inteligente e de malandra. Afinal, uma f*dida no mundo como ela é precisa saber como sobreviver!

Derfel, porém, é um show a parte. O cara é um bruto. O cara toma porrada a vida inteira, todos os livros e, aquilo vai se acumulando nele. O cara vai lutando as batalhas, mesmo as batalhas que o Arthur não está e ajudando o Merlin a fazer suas "coisas". Ele passa de um "matei um cara" até um "eu vou arrancar os seus olhos, pegá-los e enfiar no seu rabo. Depois vou fazer xixi em cima de você e queimar o seu corpo". Um amor de pessoa. O cara simplesmente vai passando a espada em todos os desgraçados que cuspiram e pisaram nele... e quem lê, claro, se amarra nisso!

Outro fator é o fator que eu chamo de "isso vai dar merd*!". Tudo parece estar bonito, tudo parece estar calmo... então acontece a coisa X, gerando um problema. Então, beleza, o evento Y ocorre e tudo parece que vai ficar na boa, problema anulado... NÃO! O Y é interrompido pelo Z e quando você percebe... ISSO VAI DAR MERD*! SEMPRE quando tudo parece que vai ficar bem, alguma coisa ABSURDA acontece e joga TUDO pro alto. E é sempre de um modo imprevisível, de um lado que você imaginava ser o mais improvável de acontecer um problema. Então você é sugado pelo livro, com o seu ritmo ágil e envolvente e, quando percebe, não consegue mais parar de ler! Bom demais!

Mais um fator: PORRADARIA. Não é aquela coisa de "a batalha aconteceu". É aquela coisa de "PAREDE DE ESCUUUUUUDOS!" e "Sentia o hálito bêbado do meu inimigo se aproximando de mim, quando eu saquei a minha espada e, com um giro, atingi a barriga dele, fazendo com que suas tripas caíssem e sujassem o chão de marrom e vermelho". Não é algo esteticamente bonito, mas é fantástico ver as descrições das batalhas e as confusões absurdas que elas provavelmente seriam e se sentir em uma "parede de escudos". Tem os diálogos legais? Tem! Tem a trama bem bolada? Sim! Mas também tem porradaria alucinante! Sangue e pedaços de corpos para todos os lados! Além disso, a parada é "realista". Os personagens sentem medo, querem fugir... Não são todos loucos querendo se matar. Os detalhes são bem realísticos, mostrando o inferno de estar no meio de uma pancadaria campal, revelando que as coisas "não eram tão nobres assim".

Por isso, eu recomendo essa trilogia para ler, principalmente para quem quer ler e não pensar em duzentas tramas ao mesmo tempo e simplesmente relaxar e se divertir.

Turma de Eletrônica

Engenharia Eletrônica e de Computação. Esse é o meu curso no "Fundão" (vulgo UFRJ). Posso dizer que somos alguma coisa parecida com a Engenharia Elétrica, mas decidimos nos especializar em circuitos eletrônicos... Acho que, no fim, ao invés de trabalhar "na brutalidade" (com kilovolts, bobinas girando e arcos voltaicos no laboratório), decidimos fazer as coisas "com elegância" (sistemas sensíveis, lá na ordem de apenas alguns volts), além de termos alguma coisa voltada para Computação. Eu realmente não sei bem qual é a diferença. Gosto de dizer, porém, que a Eletrônica é um dos cursos mais difíceis (é verdade!). O que o pessoal tem "normal", nós costumamos ter a "versão Hardcore da Eletrônica" (e "Eletrônica" e "Hardcore" é pleonástico!).

Posso falar que, na UFRJ, segundo o próprio coordenador do curso, a Eletrônica é a Engenharia com a maior base matemática e maior número de aulas práticas. Sabe qual o significado disso? Sofrimento e... diversão! Sim, ter uma base matemática forte pode ser muito complicado, se você não gostar tanto assim. Pessoalmente, eu gostaria de entender mais do que eu entendo, mas também tenho um limite de "que porr* é essa?" quando as coisas começam a ficar alucinadas demais. Sobre a parte prática... é trabalhoso no começo, meio e fim. Tudo quebra, tudo queima. Inclusive, você pode ganhar uma marca permanente se algum amiguinho seu decidir encostar um CI (vulgo chipzinho) no seu braço. Fatos verídicos.

Isso não quer dizer que precisamos ver as coisas necessariamente por uma perspectiva ruim: Saber "matemática" pode ser útil para encarar as matérias que vem pela frente (ainda mais quando aparecem uns malucos para aloprar) e ter aula prática é útil justamente para não ficar com a bunda na cadeira o dia todo (mesmo que as coisas queimem, elas até que são legais quando funcionam!).

Entretanto, todo semestre eu me pergunto (ainda mais quando a coisa começa a ficar séria e o tempo curto): O QUE RAIOS EU TÔ FAZENDO AQUI?

Cada dia eu descubro mais a resposta: Até que eu gosto da Eletrônica!

No começo... era bem chato. Cálculo I (com que professor? Odeio aquele cara, nunca deu uma aula de gente e eu, calouro-noob, não troquei de turma e quase repeti por causa disso), Física I (professor se achando o tal), Química (primeira aula que eu dormi na VIDA!), Computação I (mestre dos magos...), Física Experimental I (tranquila, até!) e a infame "Humanidades e Ciências Sociais" (bo-ring!). Mas também tinha a parte legal. Era um mundo novo, pessoas novas para conhecer... pena que não tivemos um "trote" para interagir o pessoal. Bem que os veteranos no começo me pareceram... toscos.

Mas o tempo passa, o tempo voa. E, com aquela turma (ou pelo menos o pessoal que sobrou) passamos todos pelos mesmos problemas e pelos mesmos desafios. Computação II (a nota que vem cedo), Físicas e Cálculos (sempre simples), Circuitos Lógicos (e a sua correção 0 ou 1 sobre 10!), Circuitos Elétricos (não com o professor tranquilo, mas com o carrasco!), para citar algumas coisas. Eu poderia gastar tempo aqui falando o que aconteceu cada uma dessas matérias, mas digamos que todas elas tem histórias bem divertidas para falar, mas excessivamente longas e cheias de piadas internas. Deixe-me resumir: Apesar das dificuldades, cada passo confirmava a determinação de seguir um curso e um caminho. Ou pelo menos as piadas que se formavam - e as personalidades estranhas de cada um dos professores - de algum modo cativaram um carinho pelo curso.

Pode ter sido chato, insuportável, trabalhoso? Sim, provavelmente foi. Mas todo mundo andou e passou. Todo mundo (ou a maioria) conseguiu continuar.

A parte boa disso é que, no fim, você pode acabar falando com a maioria. Os problemas surgem e você percebe que, como tá todo mundo no mesmo barco, a troca de informações acontece em todas as direções. Cada um sabe uma coisinha e, falando, acaba ajudando o outro que não entendia aquela parte. As provas antigas (artefato essencial na faculdade) são distribuídas como água (na teoria). Sem contar a xerox do caderno daquele cara estudioso, essencial para aprender em 3 horas o que tu tinha que ter aprendido em 3 meses! Uma situação complicada une as pessoas.

Não foram poucas as vezes que tava todo mundo ferrado com a matéria, mas fazíamos piadas da nossa própria "desgraça" para aliviar. Parte ruim nisso? Nenhuma! Os trabalhos complicados eram "colados" um dos outros e eu me peguei várias vezes fazendo "pesquisa de opinião" sobre os trabalhos. Eu, pessoalmente, nunca me juntei com o pessoal para estudar alguma coisa - acho que rendo melhor fazendo sozinho - mas sempre os "usei" para tirar minhas dúvidas.


Então, de certo modo, sair para viajar agora e vendo que eles vão continuar (talvez aos trancos e barrancos) o caminho deles enquanto eu vou fazer algo diferente, me fez perceber que eu achava essa turma bastante legal. Não temos (muita) gente chata e insuportável. Logo, posso dizer que gosto dessa turma e sentirei falta de assistir aula com eles (mesmo que eu ficasse dormindo em algumas delas, hehe).

domingo, 2 de dezembro de 2012

Circuito das Estações Adidas - Verão 2012


Hoje, dia 2 de Dezembro, é/foi o dia que eu realizei a minha primeira corrida. Corri o Circuito das Estações Adidas, modalidade Verão, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O circuito tinha 5km no total. Saí no pelotão branco, o do pessoal amador.

Preparação: No começo, estava seguindo uma série que um instrutor da academia tinha passado. Fazia 5km em uns 32min. Chegou uma hora que eu falei "ahã, tá bom." e passei a ignorar a série e aumentar o ritmo. Consegui reduzir para 31, depois 30, depois 29 e cheguei ao ponto de fazer em 27 min. Então, correndo 27 minutos na esteira e pensando que na pista de verdade, com sol e blablabla poderia ser mais difícil, eu esperava fazer uns 29 minutos. Mas a realidade é diferente da teoria...

Na hora: A largada é muito maneira! Fiquei bem na "ponta" da largada e tinha um mundo de gente envolta. A atmosfera é muito boa e ficou ainda mais divertido quando tocou "Gangman Style". Depois de um tempinho de espera e algumas olas, finalmente pude largar. O reloginho já contava 15 segundos (mas só começa a contar pra mim quando o chip que eu carregava passasse por ali) quando eu finalmente atravessei a linha do início.

O começo é bem confuso. Tem muita gente, muito ritmo de corrida misturado, então eu decidi avançar e tomar distância. Zigue-zagueando, eu comecei a acelerar e a cortar boa parte do pessoal que tava na minha frente, até o ambiente ficar mais calmo.

A animação do pessoal é contagiante. Você ignora qualquer cansaço, sono, calor... qualquer coisa de ruim vai embora. Você só pensa em correr, correr e dar o seu melhor ali. É você contra você mesmo. Não tem ninguém competindo para ser mais rápido do que você. Por isso eu achei tão divertido. Naquele momento, mesmo tendo centenas de pessoas correndo na minha volta, eu sabia que o duelo era contra eu mesmo. E, por isso, eu tinha que me esforçar muito para me superar.

A adrenalina nesse começo é enorme e eu aproveitei para colocar um ritmo mais forte.

Vou falar que, no começo, eu tava tão pilhado que via pessoal distribuindo água e falava "dane-se essa p*rra! Vou correr que nem um monstro!". Depois de mim mesmo, acho que o pior inimigo era o sol. Quando eu percebi, eu já tava nos 3 km, fazendo a curvinha, com o pé pegando fogo e ainda muito animado.

Essa parte do meio da prova foi o mais complicado. O cansaço já vinha e o sol começava a atrapalhar. Lerdar? Jamais! Não parei de correr um único instante e finalmente decidi pegar um copinho d'água. Me senti um profissional dando um gole, jogando o resto na cara e depois isolando o copo pro canto da pista!

O tempo foi passando e chegaram os 4 km. Faltavam 500m... 400m... 300m...

Nessa hora eu pensei "hora de pegar energia pro sprint final!" e, quando faltavam 100m, eu disparei que nem um maluco, juntando toda a força que me restava. Naquele momento eu só queria correr o masi rápido que conseguisse. Teve um cara do meu lado que começou a sprintar também, mas eu pensei "AQUI NÃO RAPAZ. SPRINT MAIS RÁPIDO SERÁ O MEU!" e botei ainda mais velocidade. Cruzei a linha de chegada bem exausto, mas, quando vi o tempo lá em cima, marcando uns 24:30 minutos, fiquei muito feliz com o meu desempenho. Para quem tinha treinado fazer por volta de 27 min, eu tava indo melhor do que eu esperava.

Ver onde o esforço pode nos levar é sempre uma excelente sensação!

Já estou animado para correr as próximas corridas!

sábado, 1 de dezembro de 2012

Asas da Liberdade

Asas da Liberdade


Aquele era um excelente dia para os seus planos. Seus olhos negros fitavam o céu azul, enxergando as pouquíssimas nuvens brancas que dividiam espaço com o grande e dourado sol. Podia sentir os raios do astro rei aquecendo o seu rosto, como o leve toque de uma donzela. O vento soprava calmamente, fazendo-o se sentir bastante confortável. Levou a mão até o emaranhado de cabelos negros em sua cabeça, sentindo o efeito da água salgada neles. Seus ouvidos percebiam o barulho das ondas chocando-se naquele velho cais, assim como o barulho da madeira rangendo. Nem sentia o seu corpo balançando de um lado para o outro, junto com o mar.

- Capitão Pidgeon, toda a carga foi colocada na embarcação! Falta apenas essa parte que você está em cima! - A conhecida voz daquele marujo soou. John fitou-o de cima das grandes caixas de madeira que estava sentado, abrindo um sorriso e revelando os seus dentes meio amarelados pela não tão boa higiene mas igualmente amarelados por causa do rum.

Sem falar mais nada, colocou-se de pé, botando mais uma vez o seu desproporcional sobretudo vermelho por cima do corpo, antes de, em um único salto, sair de cima da caixa. Caiu no chão com leveza, mas fez bastante barulho ao se chocar na madeira do pier e, por um momento, pensou que ela quebraria.

- Certo, certo. Pode colocar o restante na embarcação. Avise-me novamente quando vocês tiverem terminado. - Respondeu calmamente, exibindo um pequeno sorriso ao marujo. Sua voz era firme, mas falava devagar, sem pressa alguma. A verdade era que John Pidgeon era bastante novo, para o trabalho que ele fazia.

Não devia ter mais do que os seus vinte e seis anos, mas os seus traços faziam-no parecer até alguma coisa mais novo. De fato, se não fossem as vestimentas de Pidgeon, ele seria apenas um jovem arruaceiro. O fato era que era um jovem arruaceiro que gostava bastante de rum. Um capitão aprendiz, um jovem pirata... como ele se autodenominava se diferenciava de acordo com o momento. Era estranho ver como um marinheiro já experiente podia ter aquela aparência tão naturalmente jovial.

Era alto, porém. Devia ter próximo de dois metros de altura, pesando por volta dos noventa quilos. Seu cabelo era negro e bagunçado, difícil de pentear porque constantemente ele mergulhava na água salgada e não se importava muito com a própria higiene. Por baixo daquela camisa e calça negras e do sobretudo vermelho, John escondia um corpo bem definido, mãos calejadas e alguns tipos de cicatrizes que um pescador podia arranjar ao longo da sua vida. Orgulhava-se daquela que mostrava marcas da sua batalha contra o "Peixe-Espada da Lâmina Sangrenta". Era um homem do mar, um homem de sal. Sua vida era sempre navegar. Além disso, exalava naturalmente um cheiro de rum que se misturava com o cheiro do mar. Alguns, inclusive, lhe chamavam de "John Fígado de Aço" ou "Capitão Rum". Ele até gostava da reputação que tinha - ou simplesmente não se importava o suficiente.

Respirou profundamente, avistando a beleza que era a sua embarcação. Sim, claro, ele praticamente vendeu um rim para obtê-la. Sim, claro, ele estava atolado em dívidas. Mas, sim, claro, aquele era o seu barco, a sua moradia, a sua propriedade. Os tempos eram difíceis, mas ele havia decidido arriscar. Havia decidido navegar, mais uma vez. Desde que sua última embarcação havia sido destruída em uma tempestade e ele havia perdido quase tudo, ele teve que recomeçar. Reconstruir.

Havia decidido seguir uma velha ideia. Navegar pelo mundo, viajar para todos os lugares, sem rumo. Mas, para isso, precisava de dinheiro. Tinha que fazer negócios. Tinha que enxergar oportunidades. Portanto, precisava reunir o grupo de pessoas com o mesmo sonho que o dele, com os mesmos objetivos. Juntos, poderiam aproveitar a companhia um do outro - mesmo que temporária - para lucrar e crescer.

Asas da Liberdade, esse seria era o nome do seu novo navio. Asas que o permitiriam voar. Mas, na Asa, ainda faltavam as Penas. Estava praticamente sozinho. Precisava encontrar uma nova tripulação. Precisava encontrar novos amigos. Apenas junto de outras pessoas, ele sabia, a Asa poderia ter penas suficientes para voar. Cada uma delas era importante e precisavam trabalhar juntas, em harmonia.

E encontrar pessoas potencialmente leais era uma tarefa complicada. Ele havia conseguido juntar um pequeno grupo para ajudar a embarcar as mercadorias, mas eles não o ajudariam na navegação. O pequeno barco que possuía podia ser operado por uma pessoa só, mas o companheiro de viagem era uma coisa importante, para evitar o tédio e os perigos do oceano.

- Onde está aquele maldito bardo? - Pensou, respirando profundamente. Seus olhos fitaram os "marujos" colocando as mercadorias na embarcação. Faltavam apenas alguns minutos antes de partir. E o seu companheiro de viagem ainda não havia aparecido. Malditos fossem os bardos e as suas lorotas.